A Direção-Geral do Património Cultural arquivou o pedido de abertura do procedimento para classificação de âmbito nacional da antiga sucursal da Fábrica das Devezas, que se situa na vila da Pampilhosa, no concelho da Mealhada. Na manhã da passada segunda-feira, o executivo camarário analisou a possibilidade de a Autarquia classificar o imóvel como de interesse municipal, contudo, vão «aguardar pelo próximo quadro comunitário», temendo que a classificação «possa limitar a ação para preservação daquele espaço».

«Recebemos da Direção Geral do Património Cultural este arquivamento, onde explicam porque não consideram que seja património classificado nacional, sendo uma das razões o facto de o edifício estar a ser demolido aquando da vistoria em 2019», começou por dizer António Jorge Franco, presidente da Câmara da Mealhada, adiantando que a referida entidade «sugere que a Câmara o classifique como Interesse Municipal».

O autarca disse ainda que «existem lá fornos e uma ou duas fachadas, que devem ser recuperadas». «Classificarmos já de Interesse Municipal pode criar alguns constrangimentos no edifício ou zona envolvente», acrescentou.

«No mesmo documento que enviam, recomendam o registo, de modo intensivo, de todas as estruturas que não foram demolidas. Sou defensor das memórias e acho que tem que haver um projeto de recuperação para os fornos, chaminé e fachada», enfatizou o autarca, admitindo «ser uma mais valia para o património do concelho».

José Calhoa, vereador eleito pelo Partido Socialista, lamentou o facto «de o Património da Cultura ter tido 20 anos para classificar o imóvel» e ter escolhido ir ao local «precisamente quando estava a ser demolido». «Que isto não seja impedimento para a construção do Centro de Interpretação da Linha da Beira Alta, que o Movimento tinha no seu programa eleitoral. É mais um espaço que pode ser muito interessante», disse ainda, exemplificando com a cerâmica arganilense «que foi recuperada e está excelente». «O aspeto das cerâmicas na Pampilhosa não é o melhor e o documento diz que a demolição era para a construção de um parque de estacionamento», acrescentou.

Em resposta, António Jorge Franco admitiu que possa surgir um Centro Interpretativo, mas não descarta a possibilidade que isso aconteça em outro local, recordando o vereador da oposição de que não foi o executivo que lidera «que andou (nas Devezas) com máquinas».

Para a vice-presidente da Câmara da Mealhada, Filomena Pinheiro, «a Cerâmica faz parte da memória de todo o país e da nossa identidade». «Defendo fazer-se algo ali, mas não podemos só pensar em núcleos museológicos porque isso também onera as entidades públicas», disse ainda, admitindo que «a classificação pode limitar a nossa ação em preservar aquele espaço». «Devemos olhar para o próximo quadro comunitário e tentar perceber como podemos agir. Depois, sim, passarmos à classificação», defendeu.

Na sessão pública do passado dia 10 de julho, no período de intervenção do público, Mário Rui Cunha, anterior presidente da Junta da Pampilhosa – cargo que renunciou em 2022, alegando «motivos de saúde pessoal e familiar» – manifestou-se sobre o ponto que iria, mais tarde, ser discutido. «Continuo a olhar para as ruínas das Devezas com muita preocupação», disse, recordando estar lá, entre outras coisas, «uma chaminé oitocentista». «Visitei a Fábrica da Rocha em Oliveira do Bairro e fiquei muito agradado com aquele espaço multiusos muito interessante que fizeram», disse.

Recordamos que parte da Cerâmica das Devesas, foi demolida, em abril de 2019, no mandato de Rui Marqueiro, que alegou, à época, «questões de segurança» e admitiu que o local poderia dar lugar a um «parque de estacionamento».

 

Texto de Mónica Sofia Lopes

Fotografia de Arquivo de abril de 2019