Pensamos sempre, ou quase sempre, que sabemos tudo e que na nossa conceção só mora a verdade, sobre o que pensamos, sobre o que sentimos, sobre o que vemos. Possuímos garantias de muitas coisas enquanto seres vivos, mas nenhuma nos garante o dia em que termos que assumir perante os outros de que “hoje caiu-me a ficha”.

A vida humana é muito complexa e imprevisível e ao longo do nosso crescimento deparamos com essa grande verdade, mesmo quando se nasce num berço de ouro. Apesar de, muitas vezes, essa possibilidade de nascença nos livrar de assumir a complexidade e a imprevisibilidade da vida.

Confrontada com a sua situação de saúde e incapaz de dizer muitas palavras corretamente, começou a contar histórias que não têm nexo para um ouvinte desatento. Mas ainda assim, continuava a falar, e dizia o Sr. J: “quando era mais novo, achava que tinha ganho a vida e que, tirando os meus pais, a minha família, não ia precisar de ninguém, para cuidar de mim, muito menos saber o que penso ou sinto. Mas, ao longo da vida fui percebendo que, o que achamos quando somos novos, “cheios de vida”, são ilusões desmedidas que nos dão vontades de ir atrás e tentar conseguir o que queremos para nós e para os nossos.

Nesta conversa lenta, cheia de vida e apesar da velhice e debilidade do Sr. J, tanto a vida dele como a de qualquer pessoa a face da terra, sendo jovem ou não, também está cheia. Tristemente, não consegue fazer tudo pelas suas próprias mãos, mas, não é por não conseguir isso, que lhe podiam reduzir a tamanha vida que nutre na cama de hospital. Há uma certa visão patente no nosso meio, que nos leva a crer que são só os jovens que estão com a vida cheia e as pessoas com idades avançadas já não interessam.

Pensando melhor, a vida dos jovens está a caminho de estar cheia, e muitos deles não conseguem atingir esse nível por vários motivos, entre os quais, a falta de oportunidade de emprego e salário digno, ilusões desmedidas, o excesso de pensamento de que são donos do mundo e do futuro, levam as pessoas jovens a descuidarem-se das suas sensibilidade e das suas formas de encarar o outro, e assumir que estão embebidos de sensibilidade e doçura para as pessoas próximas.

As experiências que o Sr. J partilha nas suas conversas “tortas” e histórias contadas por muitas outras pessoas com idades avançadas revelam a olho nu de que, é mais do que preciso e mais do que urgente construir uma ponte saudável que interliga as várias gerações de modo a cultivarmos e praticarmos uma sensibilidade apurada, para que possamos ver o outro com ternura e não com pena.

 

Artigo de Mamadu Alimo Djaló

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