O Município da Mealhada demoliu, na semana passada, parte da antiga Fábrica de Cerâmica das Devesas, situada junta à Estação de Comboios da Pampilhosa, “por questões de segurança”. O ato gerou “alarido” nas redes sociais e levou os vereadores da oposição a pedirem ao executivo socialista de Rui Marqueiro uma reunião extraordinária, que se realizou na tarde de 18 de abril. O autarca garantiu que “a primeira prioridade” para aquele local “é um parque de estacionamento” e que tudo fará “para preservar a fachada”, admitindo, contudo, que se, em alguma altura, também esta representar perigo, “será demolida”. “Temos diverso material guardado e há-de, brevemente, ser exposto”, disse ainda o autarca.

Depois do assunto correr algumas páginas de jornais e ser alvo de imensas e variadas publicações no Facebook, nomeadamente do Bloco de Esquerda e da coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada”, ontem, Rui Marqueiro, presidente da Autarquia, defendeu que “razões de segurança” foram o fator “para a demolição parcial da fachada”.

O autarca explicou que, há mais de cinquenta anos, quando se eletrificou a linha de comboio, inseriram as catenárias ao lado da fachada. “O que podia acontecer era alguém ao passar ser atingido por alguma coisa; uma derrocada poder projetar a catenária; ou ainda as pedras rolarem e fazerem descarrilar um comboio”, insistiu Rui Marqueiro, alegando que “não restava outra hipótese que não fosse a demolição”.

“Muito antes de ser comprada, em 2011, já estava em auto-demolição e mostrava grandes sinais de ruína”, continuou Rui Marqueiro, garantindo que, nos seus mandatos, “foi havendo muitas visitas à fábrica”, tendo a tempestade Leslie “complicado a segurança daquele espaço”.

Hugo Silva, da coligação, quis saber de quem partiu a iniciativa de demolição, garantindo que “a senhora presidente da Junta descreve uma sucessão de alertas feitas à Autarquia”. Rui Marqueiro disse ser da sua “responsabilidade, com validação da IP (Infraestruturas de Portugal), a quem tivemos que pedir autorizações e proceder ao pagamento de taxas”. “O perigo era iminente e se ali acontecesse alguma coisa era crime público”, reiterou.

Mas o vereador da oposição continuou, questionando “qual o protocolo seguido para manter parte da fachada que permaneceu”, uma vez que afirma ter-lhe sido dito “que aquela demolição coloca ainda mais risco o que ficou”. Em resposta, Rui Marqueiro foi peremptório: “Na intervenção feita esteve presente um técnico de segurança da IP, entidade que se amanhã me me disser que o que restou está a colocar em risco a segurança, eu procedo também à sua demolição, mesmo que a Câmara não mo permita!”.

E sobre a preservação do património histórico e industrial, foi Nuno Canilho, vereador na autarquia com o pelouro da Cultura, quem explicou que “em 2014, a Câmara pediu um estudo ao maior arqueologista do país, Avelãs Nunes, da Universidade de Coimbra, que identificou como interesse para musealização, o Bloco C e parte do D (a zona da fábrica e do forno) e que todo o resto deveria ser desmantelado, inclusivamente, o Bloco B (da fachada que permanece)”, mas que “os serviços municipais entendem que, por estar ali um conjunto de peças ilustrativas, deva ser preservada”.

Também a vereadora Arminda Martins garantiu existir material do local “devidamente guardado e catalogado”, que Rui Marqueiro adianta “vir a ser exposto”. “Não num espaço museológico, com o qual nunca me comprometi”, rematou, acrescentando que para aquele local se prevê “um parque de estacionamento de auxílio à estação, com sistema bilhético” para compra de ingressos de comboio.

 

Assunto debatido em Assembleia de Freguesia

Na noite da passada quarta-feira, o assunto foi também abordado na Assembleia de Freguesia da Pampilhosa, ora por munícipes da localidade, ora por representantes do Bloco de Esquerda e da coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada”.

Na altura Rosalina Nogueira, presidente da Junta, explicou que “relativamente ao espólio houve sempre a preocupação na recolha de elementos, alguns pertença da Câmara e outros julgo que pertença do GEDEPA (Grupo Etnográfico de Defesa do Património e Ambiente da Pampilhosa)”.

Para a autarca, na demolição, “esteve em causa a preservação da segurança das pessoas”, num local, onde diz que há munícipes “a ouvirem barulhos e até algumas derrocadas”. “Manifesto sempre preocupação à Câmara, como aconteceu na Leslie e, há pouco tempo, em março, quando estiveram fortes ventos, voltei a enviar dois emails”, referiu.

Também Vítor Matos, anterior presidente da Junta, agora eleito pelo PS membro da Assembleia, referiu “ter muito material guardado”, confessando “ter ido ao local mesmo sem autorização da Câmara”. “Foi ‘pelas pessoas’ que a Câmara procedeu a esta demolição, até porque se alguém ali morrer a culpa será de quem?”, questionou.

 

Mónica Sofia Lopes