Alguns segundos da energia, que se utilizará em Portugal, nos próximos dias, serão provenientes de biomassa resultante do “aproveitamento de acácias (uma espécie de vegetação invasora)” do Bussaco. O “Compromisso” foi formalizado, na manhã de ontem, dia 7 de junho, entre as Câmaras da Mealhada, Mortágua e Penacova, a empresa “The Navigator Company” e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). A assistir esteve Miguel Freitas, secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural.

Na prática o “Compromisso Bussaco” destina-se a combater a proliferação de espécies invasoras (acácias) na Serra do Bussaco, aproveitando esta biomassa como fonte de energia. Depois, a vegetação cortada é queimada na Central de Biomassa da Navigator em Cacia (Aveiro), que fornece energia elétrica à rede pública.

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“As acácias serão transformadas em segundos de energia”, disse José Luís Carvalho, da “Navigator”, revelando, que as centrais de biomassa de Setúbal, Figueira da Foz e Cacia fornecem “já cinco por centro da energia elétrica disponível em Portugal”.

Para Rui Pombo, do ICNF, a demonstração de processamento e colheita de biomassa, no âmbito do aproveitamento das acácias, feita ontem, na Cruz Alta, pretendeu mostrar “outras formas de rentabilização da floresta”. “O ordenamento do território não tem que ser a preocupação primordial”, acrescentou.

Com cento e cinco hectares, a Mata Nacional do Bussaco conta com cerca de setecentas espécies de árvores, exóticas e indígenas, oriundas dos quatro continentes. “A acácia tem sido um problema para nós, por ser uma espécie invasora de difícil erradicação”, declarou António Gravato, presidente da Fundação Bussaco, referindo-se a uma vegetação de fácil propagação e que “atrapalha” a fixação de vegetação desejável.

“Vamos agora tentar tornar uma espécie indesejada num produto comercial ao nível da energia”, continuou António Gravato, elogiando o facto da Mata que preside “ser a única floresta pública no país que está certificada”.

Para o presidente da Fundação, o “Compromisso do Buçaco” tem na sua génese “uma cooperação entre entidades público-privadas”, bem como “cria e fortalece uma maior articulação entre a administração central e a local” e impulsiona “o espírito de intermunicipalidade que existe entre as três Câmaras”. “Muitas vezes o demónio não é a espécie A ou B, mas o absentismo e a falta de gestão da floresta”, acrescentou.

José Júlio Norte, presidente da Câmara de Mortágua, relembrou o incêndio de 15 de outubro, que fustigou o município que preside, garantindo que “ninguém gosta mais da nossa terra do que estes três presidentes que, de forma arbitrária, resolveram colocar no terreno um conjunto de medidas”.

O autarca de Penacova, Humberto Oliveira, enfatizou o papel da Navigator, elogiando o ordenamento da Mata da empresa, que foi “a que menos ardeu em outubro”. “Significa que a gestão que estão a fazer da floresta, está a ser bem feita!”, rematou.

Para o presidente da Câmara da Mealhada o papel colaborativo dos três municípios “é o mais importante” e até levou à  criação de quatro equipas de sapadores florestais para prevenção de incêndios na área da serra do Bussaco. “Falta-nos criar uma Associação Intermunicipal. Não é fácil, mas vamos conseguir!”, disse.

Miguel Freitas também elogiou o trabalho conjunto, garantiu ser este exemplo “que o Governo quer estimular”. “Queremos que todos se envolvam numa nova relação com a floresta, que seja capaz de gerir e criar coisas novas”, apelou o secretário de Estado.

 

Texto de Mónica Sofia Lopes

Fotografias de José Moura