Natural do Luso e com 23 anos, Afonso Cabral, estudante de Arquitetura na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, viu o seu trabalho final de curso ser um dos nomeados, de uma panóplia de vinte e quatro e numa seleção da ArchDaily Brasil (o site de arquitetura mais visitado do mundo) onde chegaram, em 2017, mais de duzentas e setenta propostas.

Sob orientação do Professor João Paulo Providência, o jovem lusense apresentou uma “proposta de reabilitação das Moagens de Mértola”*, que, segundo o próprio confessou, ao «Bairrada Informação», a primeira vez que “bateu os olhos” naquele edifício abandonado “não lhe passou despercebido”.

“Foi na primeira visita a Mértola e sugeri logo ao meu orientador pegar naquela fábrica industrial e dar-lhe ‘vida’”, explicou-nos Afonso Cabral, garantindo que a meio do projeto pensou em desistir. “Foi o primeiro contacto que tive com a reabilitação. Até esta altura fiz sempre trabalhos de raiz durante o curso”, continuou o jovem, agradecendo “ao orientador e colegas”. “Graças a eles este projeto teve um final feliz”, conta.

O projeto, que está a ter continuidade na defesa da tese de Afonso Cabral, é “o reconhecimento e dedicação que dei ao curso”. “Acredito que se não fosse isso, nunca podia ter acontecido um trabalho assim…”, explica.

Questionado se um dia este projeto pode vir a ser uma realidade em Mértola, Afonso Cabral é peremtório: “Mais facilmente se investirá ali num alojamento do que em outra situação qualquer, mesmo que esta fosse para preservar a cultura e o património”.

Um património que garante estar rodeado de “falta de informação”. “Metade do trabalho foi a conhecer a história daquele edifício, pois mesmo no roteiro da vila existe muito pouca informação…”, afirma.

 

*Resumo do projeto:

existente (1)Nos anos 30 o Estado Novo empreende uma política de autonomia alimentar. A produção de trigo, organizada como campanha de plantação em “terrenos improdutivos”, altera profundamente a paisagem alentejana de sobro, carvalho, azinheira, organizados em soutos e montes. Para armazenar a produção agrícola foram construídos silos, nomeadamente junto as linhas de caminho de ferro, permitindo o transporte e comercialização através das margens. O território de Mértola, como de outras áreas, foi inserido no programa, tendo sido construídos, quase contemporaneamente, uns celeiros de armazenamento de cereal e uma fábrica de moagem. Essas construções, localizadas na margem esquerda do rio Guadiana, sobrevivem hoje sem qualquer função.

11-FM TerraçoO presente trabalho tem por objectivo pensar uma intervenção arquitectónica para as margens do Rio Guadiana e, mais especificamente, o reuso dos edifícios que incorporaram a campanha que afinal contribuiu para a desertificação da paisagem alentejana, pelo empobrecimento que provocou nestes terrenos.

(Mais em https://drive.google.com/drive/folders/1jTg9gWVpu-iPAJgye7oTntGhbgq1Gab8)

 

Mónica Sofia Lopes