“Quem vai a São Tomé o primeiro impacto que tem é o verde daquela ilha, o segundo é o acolhimento que sente por parte daquelas pessoas, mas em terceiro lugar é de facto a pobreza que está presente em todo o  lado. É um país muito pequeno com cerca de cento e noventa mil habitantes que não tem praticamente recursos económicos” – Bispo Manuel António dos Santos.25035280_2418381398386462_1301904846_o

 

Hoje foi dia de ir ao lar de Idosos, perguntei à Irmã Lúcia se numa das manhãs queria que eu visse os seus velhinhos. Penso que sempre que por cá passam médicos ou enfermeiros portugueses estes velhinhos fazem as suas consultas.

O lar de S. Francisco começou em funcionamento em 2002, segundo contam, iniciou debaixo da Jaqueira que se encontra no largo da casa das Irmãs, local onde ia recolhendo os idosos durante o dia e lhes dava o almoço. Posteriormente, mesmo em frente à casa das irmãs conseguiu-se construir o lar numa parceria entre a Santa Casa da Misericórdia de S. Tomé e o Ministério da Segurança Social português.

Vivem hoje cerca de vinte idosos no lar, as mais diversas histórias de vida, o sofrimento de alguns estampado na cara, as feridas no corpo, as marcas na alma, mas comum a todos o respeito, quer pelos profissionais de saúde, quer pelas Irmãs que os acolheram, que deles cuidam, e a palavra é comum a todos sem excepção: Obrigada!!

Passam o dia entre os seus quartos e o largo para onde todos os quartos dão. Têm ainda uma pequena sala de estar e um refeitório.

Ao lar chegam diariamente mais idosos para fazer a sua refeição e onde fazem deste espaço o centro de dia.

Além deste espaço físico as  irmãs vão diariamente a S. Catarina levar uma refeição quente ao centro de dia e fazem apoio domiciliário. É inimaginável, até para quem cá está, a gestão que é feita, e com tão poucos recursos.

 

Começamos a visita ao lar pelas 8h 30m, após os cuidados de higiene e limpeza dos espaços.  Enquanto os vemos, um a um, sinto o calor intenso… aqui não há verão ou inverno, pelo menos como o conhecemos em Portugal, não estivéssemos nós sobre a linha do Equador, há antes  Gravana (época seca) e a  época das chuvas, que é nesta altura, mas em que o calor é abrasador.

Como aqui não há frio os idosos passam os seus dias assim, na rua, roupas leves, alguns pés descalços, entre os alpendres dos quartos e o largo na sombra das árvores, mas de portões abertos para a rua, podendo assim comunicar com todas as pessoas que passam e com os seus principais cuidadores. A verdade é, isto é um bairro de terra batida, todos se falam, todos se conhecem.

Todos os dias há uma enfermeira que serve o lar e a creche, se alguma criança se magoa e não houver necessidade de ir ao hospital. 

Oiço as suas histórias, como qualquer idoso, são livros abertos de histórias e sabedoria, deixo alguns sorrisos e algumas palavras de conforto… não quero complicar muito, não há possibilidade de deixar medicação instituída para todos os dias, por isso deixo algumas indicações para SOS. Fazemos ainda alguns pensos, tentamos melhorar pequenas coisas.

No próprio lar há um pequeno gabinete de enfermagem…sem dúvida que em muito melhores condições de higiene do que o hospital, e muito melhor apetrechado de medicamentos que com muito sacrifício se vai conseguindo, com uma boa gestão e com o apoio de algumas associações portuguesas.

A ideia, errada, que eu tinha era que África era um continente em que se reconhecia a autoridade dos mais velhos, em que se dava valor à  sua sabedoria. No entanto, a necessidade de abrir um lar surgiu nesta congregação de Irmãs por terem constatado os maus tratos que os idosos sofrem em São Tomé e Principe. Embora não existam referências estatísticas, este parece ser um fenómeno cultural grave: há muitos idosos abandonados, sujeitos a maus tratos físicos e psicológicos, por serem acusados pelos familiares como feiticeiros e de darem má sorte, e são assim responsabilizados pelas famílias por tudo de mau que acontece. São, por isso, despejados das suas casas e maltratados ou abandonados. Facto que se torna ainda mais evidente em outras religiões que não a católica.

Os sinais de abandono são evidentes nestes idosos, as suas doenças físicas não são nada quando comparadas com o seu sofrimento psicológico.24956664_2418381365053132_1039567047_o

Entra um idoso no lar de novo, as irmãs já o acompanhavam há muito tempo no domicílio, por terem uma vaga trouxeram no agora. Bebeu petróleo, foi o que encontrou provavelmente, dão lhe um banho e deitam no na cama, apesar do calor, encontro o todo encolhido, enrolado numa concha, era como dormia há anos deitado no chão, enrolado provavelmente para não ter frio durante a noite. Hoje vai dormir numa cama… e com o tempo talvez se volte a acomodar a um colchão…

Tem uma história de vida muito, muito dura. E este homem precisa pelo menos de se sentir um pouco respeitado na sua dignidade.

 

24946215_2418381345053134_466191658_oAlém dos idosos, o grande investimento é na educação dos mais novos, e como se diz em bom português “é de pequenino que se torce o pepino”, é com estas crianças, numa aposta na sua educação, no seu crescimento saudável, na apreensão do conhecimento, na introdução de novos valores, na proteção da sua saúde, que se procura construir uma base de sociedade futura capaz de vir a erguer este país. A gestão diária da creche, da escola básica até ao quinto ano, do ATL, é feita diariamente milagrosamente.

Mas o grande o investimento mais recente foi num berçário, que tive também a oportunidade de passar algum tempo. O berçário torna se essencial para algumas mães conseguirem deixar os seus filhos enquanto trabalham, mas que tem também um objetivo de vigiar bebes identificados com desnutrição no hospital e prestar a necessária vigilância e seguimento. Este projeto foi financiado por associações portuguesas. A enfermeira do lar terá também ao seu encargo estas crianças que manterá sob vigilância apertada.25035435_2418381381719797_1954722265_o

Neste local transborda Carinho, desde todo o espaço físico projectado carinhosamente num país pobre,  até ao calor humano sentido lá dentro para com estas crianças, algumas certamente vindas de famílias desestruturaras, que aqui encontram todo o conforto e a certeza de um desenvolvimento saudável que devia ser um bem universal.

É inspirador o trabalho feito aqui em Neves, um verdadeiro oásis, e que só não aproveita quem não quer. No meio de tantas dificuldades, desenvolveu se com muito esforço, com alguma ajuda externa é certo, uma estrutura capaz de sustentar muitas famílias, mas incentivando a população no seu trabalho, criando postos de emprego, responsabilizando.

É difícil imaginar o que contam do que isto era no passado. A Irmã Lúcia diz: “Onde houver o bem a fazer que se faça”, e assim é o trabalho diário nesta terra… olha para o passado e sente ser inspirador o que já fez, não consegue olhar para o futuro porque pode ser assustador… vive todos os dias o presente…um dia de cada vez.

 

Texto e imagens de Estela Loureiro

Médica voluntária em São Tomé e Príncipe

 

Esteve, durante muito tempo, na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados da Mealhada