A preparação foi frenética. A ideia era meter nas três malas o máximo de coisas que pudessem ser úteis… material para o centro de saúde, brinquedos, medicamentos…

Já sabia que para onde ia, não havia muita coisa, mas não sabia para o que ia exatamente.

Tudo foi combinado numa viagem de reconhecimento que fiz em junho, fiz as malas e vim saber onde podia e me aceitavam para ajudar. Quem me recebeu foi a irmã Lúcia, em Neves. Trabalhava em parceria com o hospital de Neves e arranjava lá um lugar para mim.

 

Mala Cheia…tudo o que coube veio…até quase rebentar pelas costuras.

De Lisboa a S.Tomé, com paragem em Accra (Gana), o voo atrasou cerca de quarenta minutos o que fez com que S. Tomé nos presenteasse com um pôr-do-sol inesquecível ao aterrarmos na pequena ilha que, contando com a ilha de Príncipe e as várias ilhotas, tem um total de 1001 km2.

Assim que se sai do avião o calor é húmido, típico de país tropical…E aí começa a magia deste povo.

 

Na fila para passar no SEF conhecemos duas portuguesas. Eu, sem vergonha, pergunto se também vêm para voluntariado… são estudantes de medicina que vêm para S. Tomé ajudar após o exame da especialidade. Elas vão para Guadalupe… nós para Neves. Vêm de coração cheio também e com muita vontade de ajudar.

 

  1. Tomé é uma ilha abençoada por Deus, o próprio S. Tomense o diz, onde não falta nada e tudo falta.

 

À chegada ao hotel espera-nos um amigo (aqui toda a gente é amiga). Estive cinco dias em S. Tomé em junho para procurar esta minha “missão” e foi o suficiente para deixar amigos prontos a me receber de braços abertos… apesar das quase duas horas de atraso da hora combinada, ele diz “Estela, Leve Leve” de sorriso sempre aberto na cara.

 

S. Tomé apesar de um país turístico, não é no meu ponto de vista para todos os turistas, pelo menos para aqueles que não se contentam com o espaço confinado ao hotel e que gostam de explorar…24209124_2412450165646252_354787590_o

Os resorts existentes, as paisagens deslumbrantes dignas dos melhores filmes, as praias desertas, contrastam com uma pobreza difícil de descrever por palavras. É preciso ter “estômago”, mas vale tudo a pena neste paraíso, porque a verdadeira beleza está na Natureza em estado selvagem, mas está também no meio do povo onde a todo o momento surge um sorriso, surge um bom dia, surge uma criança (uma não, vinte ou trinta) que se enquadram perfeitamente na beleza da paisagem.

A fruta, o cheiro da terra, a simpatia das pessoas, as suas histórias, são de deliciar quem vem e quer sentir o que de mais genuíno há nesta terra.

 

Mas a minha viagem tem um objetivo principal: colaborar no centro de saúde / hospital de Neves.

Neves é uma cidade situada no norte na ilha, capital do distrito de Lembá. É uma zona pobre, embora não a mais pobre da ilha.

Nesta cidade existe o Projeto para o Desenvolvimento Integrado de Lembá (PDIL), cujo principal objetivo é Educar e alimentar as crianças desfavorecidas, alimentar e cuidar dos idosos carenciados e formar e capacitar os jovens para um trabalho digno e sustentável.

O PDIL é gerido pela Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, foram elas que nos acolheram. Vamos para a casa  “Fiz do Mundo”, onde todos os anos passam vários voluntários. A casa dos voluntários fica no jardim de infância…onde diariamente estão 671 crianças da primeira classe ao quinto ano, 276 crianças dos dois aos cinco anos e 26 crianças no berçário, que inicia agora um projeto para combater a desnutrição infantil. Estas crianças têm assim diariamente, pelo menos, uma refeição quente.24140064_2412449372312998_1493979885_o

O projeto conta, ainda, com um lar de idosos e o centro de dia de Santa Catarina que fornece uma refeição quente por dia e realiza apoio domiciliário a idosos carenciados e isolados, apoiando cerca de duzentos e cinquenta idosos. A casa das irmãs emprega ainda cerca de 100 pessoas com projetos de costura, carpintaria, informática, diminuindo o desemprego e permitindo a algumas famílias melhores condições de vida.

Aqui o dia acaba cedo, as 18 horas já é noite, por isso neste primeiro dia antes de recolhermos a casa passo pelo hospital só para matar a curiosidade…é a enfermeira parteira de serviço, que é também a madrasta do nosso amigo, que de forma rápida me mostra o hospital…

Hoje é sexta-feira…está quase vazio… dois recém nascidos esperam aumentar o peso para ter alta, uma criança à espera para ser chamada e não passei no internamento, nem na urgência… Segunda feira começará a aventura, no entanto a enfermeira já sabe que se houver um parto é para me chamar.

Para já o fim de semana serve para descansar, conhecer as pessoas, integrar-me no meio delas, ouvir as suas histórias e perceber em que posso vir a ajudar!

 

Texto e imagens de Estela Loureiro

Médica em voluntariado em São Tomé e Príncipe

Esteve, durante muito tempo, na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados da Mealhada