Nuno Canilho, diretor geral da Escola Profissional Vasconcellos Lebre, na Mealhada, há quase quatro anos, dá uma entrevista ao «Bairrada Informação», onde, entre muitos temas, fala dos atrasos de pagamento por parte do POCH (Programa Operacional Capital Humano), que rondam os 670 mil euros; sobre os novos Cursos Técnico de Desporto e Técnico de Pastelaria/Padaria e o porquê da sua escolha; e defende o ensino profissionalizante, dando as suas razões, um ensino que, como alega, em determinadas alturas é alvo de calúnias.

 

26 anos de EPVL. Quase quatro na direção da escola. Que balanço faz deste percurso?

Para ambos os percursos – pessoal e da escola – a avaliação é muito positiva. O serviço público que a Escola Profissional Vasconcellos Lebre tem prestado ao concelho da Mealhada, à região e ao país e de um valor inestimável. Têm sido vinte e seis anos de construção de vidas, de projetos de valorização pessoal pelo trabalho e de transformação completa de muitos jovens.

No que diz respeito ao percurso pessoal, estou satisfeito. Tenho uma equipa fantástica, de gente dedicada que ama o que faz e que se entrega de corpo e alma procurando dar sempre o melhor de si. Temos tido muitas dificuldades – os dois últimos anos foram de superação completa –, mas temos conseguido ser cada vez melhores e fazer cada vez mais e melhor. É um privilégio ser diretor-geral da EPVL.

 

Qual foi a maior satisfação?

Os momentos de vitória têm sido os melhores, naturalmente. Quando conseguimos a certificação da qualidade ISO 9001, quando conseguimos abrir mais turmas do que inicialmente prevíamos, quando temos muito mais alunos e pais a confiar em nós, quando vemos os nossos alunos a tirar dezanove e vinte valores nas Defesas públicas – com avaliadores do mundo empresarial, académico e de fora da Escola – nas Provas de Aptidão Profissional. Esses momentos são vividos com intensidade, em unidade e com muita satisfação.

 

E a maior angústia?

Numa escola, o mais importante são os alunos. Os problemas dos alunos – pessoais, sociais, económicos, psicológicos – são o aspeto que mais impacto tem nos professores, nos funcionários e, por maioria de razão, no diretor-geral e na diretora pedagógica. Quando podemos ajudar a transformar as suas vidas sentimo-nos realizados, mas quando não conseguimos – por incapacidade total ou por que nos escapou alguma coisa – então vivemos a frustração de uma maneira dolorosa. Infelizmente acontece. Apesar de continuar a considerar que a EPVL consegue e tem conseguido fazer coisas maravilhosas pelos seus alunos – com discrição, sem publicidade, tornando as suas vidas melhores e mostrando-lhes felicidade e auto-realização em domínios não apenas académicos ou profissionais.

 

A alienação da participação da Câmara Municipal na sociedade comercial da Escola Profissional da Mealhada, Lda., foi um dos primeiros “problemas” que sentiu enquanto gestor da escola. Em termos práticos, e do dia-a-dia na escola, que repercussões podem ser sentidas se a situação for revertida e passar a ter como detentores, outra vez e somente a Câmara da Mealhada e a Caixa de Crédito Agrícola?

Vai-me permitir a correção: A alienação não foi um problema. A alienação de 20% do capital do Município foi a melhor solução para resolver o problema. E o problema era o facto de haver uma lei que determinava que a escola teria de fechar se continuasse a ter o Município com uma posição maioritária e dominante. A interpretação dominante dessa lei, e a interpretação do Tribunal de Contas relativamente a essa lei, mudou. E hoje o Tribunal de Contas já entende que uma escola profissional, que é obrigatória e maioritariamente financiada por fundos europeus, pode ser propriedade de uma empresa municipal.

Portanto, posso responder que se a situação fosse revertida – e se o município voltasse a ter 64,1% da empresa que detém a escola – nada aconteceria de relevante no dia-a-dia da escola. Haveria, apenas, um processo formal – relativamente complexo e moroso – de natureza contabilística e administrativa que teria de ser feito e que levaria alguns meses a concluir. Esse processo a ser realizado, teria toda a conveniência de ser feito no final de um exercício económico, ou seja, no final de um ano civil. Mas se a Câmara Municipal decidir tomar essa decisão, salvaguarda a necessidade deste procedimento, não haverá problema nenhum.

 

“Atrasos do POCH continuam escandalosamente na mesma”

 

É sabido que, da parte do POCH (Programa Operacional Capital Humano), os atrasos nos pagamentos são uma constante. Como está a atual situação?

Continua escandalosamente na mesma. Nesta fase, se me é permitido o ponto de situação, posso dar conta de que recebemos há duas semanas o valor final do ano letivo que terminou em julho de 2016, há um ano, portanto. Recebemos em final do ano passado um adiantamento relativamente ao ano letivo 2016/17, que agora está a acabar, mas neste momento temos a haver – dinheiro que já gastámos e que estamos à espera que nos seja reembolsado – aproximadamente 670 mil euros.

 

Como é que se gere uma escola com milhares de euros em atraso por receber, como aconteceu nos últimos anos? Como se consegue sobreviver?

Consegue fazer-se o possível com muito apoio dos colaboradores, com muita compreensão dos fornecedores, com parcimónia, com cuidado, com austeridade e com a noção clara de que é preciso definir prioridades, é preciso não perder o foco nem a atenção no dia-a-dia. Consegue-se sobreviver tendo um apoio muito claro, de solidariedade e confiança, diário, da parte dos sócios, dos parceiros estratégicos e amigos no caminho traçado pela direção geral e pela direção pedagógica.

 

E como diretor-geral da EPVL tem sentido esse apoio?

Sempre. Tenho uma obrigação clara e inequívoca de agradecer todo o apoio que, através de mim, os sócios da escola e os parceiros estratégicos têm prestado à equipa que dirijo.

 

Nestes quatro anos que problemas mais sentiu por parte dos alunos?

Para os adultos que estiverem afastados do contacto dos jovens de hoje em dia, provavelmente será mais difícil compreender uma realidade que é muito diferente e que tem estado em constante mutação nos últimos anos. Eu acredito que houve um conjunto de fatores – sociais, morais, éticos, políticos, económicos, etc. – que transformaram a juventude. Problemas de desmotivação, de falta de perspetivas de vida, de quase depressão, de falta de auto-estima, de alienação (com os jovens a preferir ligar-se a um telefone ou a um computador do que conviverem com outros jovens) são hoje uma realidade que para muitos poderá ser muito difícil de perceber. Confesso que esses são os problemas que neste quatro anos mais me atormentaram. Procuramos ajudar sempre, mas acredito que estamos perante um problema civilizacional grave que precisa de ser encarado de frente pelas comunidades, em parceria.

 

Como foi o último ano letivo em termos de sucesso escolar? Número de alunos, cursos e respetiva empregabilidade…

O ano letivo que agora termina foi muito trabalhoso, mas foi extraordinário. Tivemos duzentos e oitenta alunos, em dezasseis turmas de nove cursos diferentes. Na lotação máxima, tanto em número de alunos como de turmas. Ainda não é possível apurar os índices de empregabilidade porque os alunos terminaram o estágio (o período de formação em contexto de trabalho) na passada sexta-feira, e ainda não têm os cursos formalmente concluídos, mas os sinais são positivos. Do ponto de vista do aproveitamento, implementámos algumas estratégias que deram os seus frutos e a verdade é que este ano tivemos resultados excelentes nas defesas públicas das Provas de Aptidão Profissional, com uma média muito alta e um número muito significativo de dezanoves e vintes. Implementámos algumas dinâmicas muito frutíferas, relacionadas com o voluntariado e o trabalho com a comunidade, e conseguimos resultados em concursos nacionais de que muito nos orgulhamos,

 

O lema da EPVL é ter uma oferta compatível com as necessidades da comunidade onde se insere. Isto continua a ser a mais-valia da escola?

Acreditamos nisso. Não faz sentido que a escolha dos cursos que apresentamos aos jovens em cada ano seja feita com base nos professores a quem temos de dar trabalho. O que faz sentido é que o foco seja sempre colocado nos alunos, no mercado – ou seja nas necessidades que se constituem como oportunidades de emprego futuro – e numa estratégia de valorização pessoal pelo trabalho que é inerente à nossa filosofia de vida ocidental.

 

Os estágios em contexto de trabalho também são um dos fatores preferenciais para quem escolhe a escola. Há assim tantas empresas para acolher estes alunos de cursos específicos? E o “feedback”, tanto de alunos como de empresários, é positivo?

Esse é um tema muito sensível, que importa analisar sem ligeireza. Há empresas para acolher os alunos, apesar de que já se verifica a necessidade de colocarmos alunos em todo o território nacional e não apenas aqui na região. Quanto ao ‘feedback’, seria desonesto dizer que corre sempre tudo bem. Não é verdade. Há situações em que por variadas razões não se consegue atingir o objetivo ideal, mas no balanço final o resultado é muitíssimo positivo. A formação profissional em contexto real de trabalho é um dos elementos mais positivos da oferta educativa em Portugal e que deveria ser valorizado em toda a linha e por todos os agentes educativos.DSC01490

 

Qual é a taxa de alunos que está a trabalhar e qual a que prossegue os estudos, nos últimos anos?

Aproximadamente vinte por cento dos alunos que terminam um curso profissional na EPVL prosseguem estudos. Alguns – cerca de dez por cento – fazem-no imediatamente, ou seja entram no ensino superior no ano imediatamente a seguir. Os restantes começam a trabalhar e depois prosseguem estudos, ou como trabalhadores-estudantes ou entrando no ensino superior já depois de terem estado a trabalhar algum tempo.

 

Quantos cursos vão estar vigentes no ano letivo 2017 – 2018?

O nosso objetivo para o próximo ano letivo é abrir, no primeiro ano, portanto, quatro turmas de seis cursos diferentes. Na prática aumentaremos a lotação da escola em mais uma turma, uma vez que este ano concluíram o seu curso três turmas.

 

Cursos Técnico de Desporto e Técnico de Pastelaria/Padaria são a novidade

 

Qual ou quais são as novidades e o porquê da escolha?

Vamos abrir, pela primeira vez, os Cursos de Técnico de Desporto e de Técnico de Pastelaria/Padaria. A escolha prende-se com o facto de termos recebido da parte dos nossos parceiros a indicação de uma aposta forte – nomeadamente por parte do Município da Mealhada e dos municípios da região – no Desporto e na valorização do território por via do Desporto e do chamado Turismo Desportivo como estratégia de desenvolvimento. Depois de um momento em que se apostou na construção dos equipamentos, há a necessidade de os diferenciar e valorizar através de uma aposta clara que passa pela afetação de pessoal especializado para esse fim. Daí resulta a abertura do Curso de Técnico de Desporto.

Relativamente à Pastelaria/Padaria, trata-se de ser consequente com a estratégia de valorização do Pão da Mealhada como um produto endógeno, em risco de descaracterização que precisa de ser valorizado. É o nosso contributo – e achamos até que é o mais relevante possível – nesse sentido: Formar pessoas!

 

“É uma calúnia dizer-se que o ensino profissional é ensino de segunda oportunidade”

 

Marcelo Rebelo de Sousa disse, recentemente, que o “ensino profissional não pode ser visto como um ensino de segunda oportunidade. A meu ver nunca teve razão de ser e corresponde a um preconceito social”. Como comenta esta afirmação?

A necessidade que o Chefe de Estado teve de o verbalizar, denuncia, imediatamente, que apesar de ser uma ideia sem razão, é uma ideia que existe. É um preconceito e pior: É uma calúnia. Infelizmente – e digo isso com mágoa e revolta –, é uma ideia que alguns sectores, alguns agentes educativos, fomentam, divulgam e defendem, geralmente de forma encapotada e na sombra. Quem publicita a ideia de que o ensino profissional é “para os alunos menos capacitados” é, na maior parte das vezes, pessoas ligadas à Educação que acreditam que dizendo-o estão a defender o seu posto de trabalho e o seu salário.

A realidade já o demonstrou e já ninguém falaria nisso, se periodicamente, nesta fase em que as escolas profissionais apresentam as suas ofertas formativas e divulgam o seu trabalho, não houvesse uma intoxicação aos alunos e aos seus pais insinuando que a via profissionalizante é de má qualidade, é “para burros”, ou que as escolas profissionais não são zelosas ou competentes.

As escolas profissionais já se habituaram estas ações de intoxicação, que na minha opinião, mais do que desvalorizar a via profissionalizante, desvalorizam o carácter de quem as defende, insinua e promove.