A adolescência não é a idade do armário, mas sim a idade ou o período de vida onde cada jovem começa o seu encontro consigo próprio, com os seus valores, com os seus desejos e vontades, com a sua identidade, onde reflete sobre tudo o que lhe foram dizendo sobre ele, a vida, e os outros.

É a altura de questionar quem é, o que quer, como quer, para onde vai e com quem. É nesta altura que se questiona e, que questiona aqueles que estão consigo. Reflexões sobre a vida, a morte, os riscos e desafios e toda uma panóplia de emoções e vivências ganham espaço e força neste período de vida, com a ajuda do desenvolvimento do sistema límbico – a sede de todas as emoções.

É a altura em que se sentem as mudanças corporais como galopantes e que tomam consciência que o corpo se está a preparar para ser homem e mulher, com todas as implicações que estas mudanças trazem.

Ser adolescente é na verdade um grande desafio onde se coloca à prova tudo o que foi ou não, conquistado e assimilado durante a infância. Diria mesmo que a adolescência traz à superfície a qualidade da infância e a qualidade das relações que foram estabelecidas até então.

É, neste momento, que o jovem sente mais necessidade de socializar, de conhecer outros jovens, com os mesmos interesses e que falem a mesma linguagem que a sua. É nesta fase que se explora a sexualidade, o prazer, e se estabelece uma relação mais intensa com o seu corpo.

Chamar à adolescência, idade do armário, é portanto uma grande ofensa para o próprio adolescente que sente por isso catalogado como “armário” ou “aparvalhado”… Expressões como estas criam distância e crispação entre os adolescentes e as figuras que o acompanham neste caminho. Diria mesmo que esta dimensão de incompreensão afasta grande parte das vezes o jovem de partilhar as suas dificuldades, dúvidas, receios e angustias.

Se enquanto pessoa sente que não é compreendido, escutado e não há a abertura nem a disponibilidade para ouvir as suas reflexões, não há possibilidade de construção de um mundo de diálogos francos e um espaço para algum tipo de pedido de ajuda. E quando assim é, podemos estar a perder um jovem adolescente.

É urgente começar a olhar para a adolescência como ela é: altamente desafiante e exigente. Se a olhamos de forma depreciativa começamos logo a criar entraves de comunicação e na relação com o adolescente, que precisa da nossa ajuda para sair mais forte desta fase de mudança.

Um adolescente que não se sente bem com o seu corpo, que não se sente bem com o seu grupo ou com os da sua idade, um adolescente que não se sente amado e compreendido, um adolescente que não confia em si e no mundo que o rodeia, é um adolescente em sofrimento.

E é aqui que entra a necessidade de chegarmos ao seu mundo e nos disponibilizarmos a ver com os seus olhos, a sentir com o seu coração e a estar incondicionalmente para o que der e vier. e para lhe facilitar o processo de crescimento. Não precisam de andar ao colo, muito pelo contrário, mas precisam da nossa disponibilidade constante, e de adultos disponíveis para os ouvir e ajudar.

Sinais como isolamento, tristeza acentuada, manifestações de desagrado acentuado em relação ao corpo, falta de partilha e comunicação são sinais que nos deve fazer olhar ainda com mais cuidado para estes jovens.

Há muito para fazer e construir.

A dificuldade de não se ser criança e de ainda não se ser adulto torna a vida de adolescente um desafio constante longe de ser a idade da parvoíce, mas sim a idade da procura e do encontro daquilo que quer ser e viver.

 

Diana Coimbra Gaspar

Psicóloga Clínica