Uma coisa que me surpreende aqui na Alemanha é ver as crianças a irem ou a virem da escola. Já havia um fosso a separar este país civilizado e tantos outros, este é só mais uma cavadela.

Normalmente as crianças vão à frente numa trotinete ou bicicleta (às vezes as bikes nem têm pedais) e os pais vão atrás. E esses pais nunca vão muito perto. Às vezes vejo crianças mesmo muito pequenas, sozinhas, a assapar pelo passeio, eu até penso “ui, tão pequenino e já vai sozinho para a escola! Ou já vai a fugir de casa? Ou está perdida?”. A minha aflição acalma quando depois vejo a cópia do ser humaninho em tamanho grande, impávido e sereno. Li não sei onde que os alemães ficam à distância do olhar dos seus filhos, enquanto que os portugueses ficam à distância da voz. Imagino-me a levar os garotos à escola e ir por ali fora a gritar: “Vê lá se cais, Hans!” “Já te avisei para teres cuidado! Estás aqui estás ali!” e outros carinhos pedagógicos. Estou a brincar. Eu nunca chamaria Hans a um filho.

Não consigo deixar de pensar que o conceito ou recordação de “ir para a escola” é tão diferente de pessoa para pessoa. Para estas crianças alemãs, é ir na rua, “responsavelmente na brincadeira”, a dominar desde os 3 anos um mini-veículo e ala, que se faz tarde, faça frio, chuva ou neve.

Por minha vez, quando andava na Casa da Criança que era mesmo atrás da minha casa, na Póvoa. Ao lado da entrada das traseiras havia um armazém de peixe. Às vezes, os senhores do armazém deixavam cair peixes das paletes quando estavam a carregar as carrinhas-frigoríficas e lá ficavam os peixes, no chão, à entrada da Casa da Criança.

Quando era para ir para a escola eu incorporava a rainha do melodrama. Chorava sempre, até que a minha irmã se lembrou de dizer que íamos ver “o peixinho”. Remédio santo. Todos os dias isto. Se calhar “o peixinho” das crianças alemãs é “a trotinete”.

Depois fui para o colégio de Famalicão e, para mim, ir para a escola era apanhar um autocarro público, às 8 horas da manhã. Todos sabem que o autocarro público pulula de bactérias e germes. É uma boa maneira de reforçar o sistema imunitário de uma criança. Andei tanto de autocarro quando era miúda, que hoje em dia praticamente não apanho gripes.

Eu entrava numa paragem que ficava ali ao pé do Jardim e fazia paragem em vários lugares antes de chegar ao colégio. Uma das paragens era no Forno dos Leitões e toca de enfiar encomendas de leitão fumegante para entregar em Oliveira de Azeméis. OITO DA MANHÃ! Um cheiro a leitão que se entranhava na roupa. Claro que chegava ao colégio cheia de apetite, pronta para o segundo pequeno-almoço.

Será que as crianças alemãs têm recordações destas? Não me cheira!

 

Catarina Matos

Mealhadense emigrada na Alemanha

Humorista e atriz