O Grupo de Teatro da Escola Profissional de Anadia “nasceu”, no presente ano letivo, por iniciativa de alguns estudantes e professores, fruto da necessidade que sentiam em desenvolver uma atividade, onde os alunos pudessem expressar o seu potencial criativo e dramático, concretizando assim um sonho com alguns anos.

Este grupo de teatro constituído por alunos dos diferentes anos sustenta-se em dois princípios orientadores:

– promover a divulgação do fenómeno teatral entre a comunidade escolar;

– assumir-se como agente e polo cultural e de cidadania, suscitando novos hábitos e necessidades culturais;

– motivar os alunos para a leitura e estudo da obra vicentina “Auto da Barca do Inferno”.

Auxiliados pelo ator Luís Trigo, da Companhia de Teatro Etcetera, os alunos propuseram –se a dramatizar a peça Auto da Barca do Inferno adaptada ao século XXI, retratando a realidade da nossa sociedade.

Este Auto de Gil Vicente foi representado pela primeira vez para a rainha D. Maria, em 1517.    O argumento desta obra é o julgamento das almas humanas na hora da morte. Para cenário deste julgamento é escolhido um profundo braço de mar (a água como símbolo da passagem da vida para a morte e da purificação) onde estão dois arrais: um conduz a Barca da Glória (o Anjo), outro a Barca do Inferno (o Diabo). Por este porto vão passar diversas almas que terão que enfrentar um tribunal, esgrimir argumentos de defesa constituindo-se como advogados em causa própria, e enfrentar os argumentos do Anjo e o Diabo que surgem como advogados de acusação.  Através da brilhante metáfora do tribunal, Gil Vicente põe a nu os vícios das diversas ordens sociais e denuncia a “podridão” da sociedade, recorrendo ao processo já utilizado pelos poetas da Antiguidade Clássica do Ridendo castigat mores (rindo, castigam-se os costumes).

Assim, a grande maioria das almas são condenadas ao Inferno. Joane (o Parvo) fica no cais, porque não é responsável pelos seus atos e o Judeu vai à toa (a reboque da barca) porque, não se identificando com a religião católica, não tenta embarcar na Barca da Glória e é recusado pelo Diabo. Apenas os Quatro Cavaleiros vão embarcar diretamente na Barca da Glória porque se entregaram em vida aos ideais do Cristianismo (luta contra os mouros).

Ao definir este percurso para cada uma das almas, Gil Vicente tinha por certo o objetivo de fazer desta obra alegórica um auto de moralidade, através do qual o Bem fosse compensado e o Mal castigado.

A intemporalidade do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente foi então recuperada pelo grupo de teatro da Viti, numa adaptação muito contemporânea e bastante divertida.

O texto levado à cena atravessa o tempo até aos dias de hoje trazendo algumas novas personagens e alguns novos diálogos, numa delirante composição e sempre com uma acutilante perspetiva sobre a sociedade contemporânea. Um texto divertido e animado com a ironia e a crítica de Gil Vicente.

Esta dramatização tem uma duração aproximada de sessenta minutos e é dirigida aos alunos do nono ano, na sequência do programa da disciplina de português. Depois da representação, para toda a comunidade escolar da Viti, no dia 16 de maio, está agora agendada outra para o dia 22 de maio, pelas 14h 30m, no Agrupamento de Escolas da Mealhada.

O Grupo de Teatro da Viti está à disposição de todos os interessados em assistir à representação desta peça, julgando ser uma mais-valia a todos os alunos do nono ano.

 

Fonte: Escola de Viticultura e Enologia da Bairrada