Ali no início da adolescência apercebi-me de que não éramos “ricos”. Foi daquela vez que fui a casa de uma amiga de Aveiro que tinha uma empregada interna. Para mim, essa amiga (vamos chamar-lhe Milena ahahah) não morava numa simples casa. Milena morava no que era para mim um conjunto de casas juntas numa casa só. Era um autêntico aldeamento, só faltava ter a sua própria Câmara Municipal.

Apercebi-me que a minha família não era “rica” quando vi que os aposentos da empregada interna da minha amiga Milena eram praticamente o dobro da minha casa. Um amigo, o Rogério, disse-me um dia: a tua casa é tão gira e pequenina, parece uma casinha de bonecas. O Rogério sempre foi uma pessoa muito literal. As três bonecas lá de casa agradeceram o elogio!

Imaginem o que é crescer com a noção que todos os meus amigos tinham casas maiores que a minha, usavam roupas da Benetton, iam passar férias sem ser em Mira, autênticas vidas de luxo!

A verdade é que nunca me escondi: os lanches ao fim-de-semana com os meus amigos eram em minha casa. Às vezes era eu que os convidava, outras vezes eles apareciam lá. Muitas vezes nem eu tinha chegado a casa, já havia laguém que lá estava.

Todos gostavam de ir lá para a minha casa. A minha mãe sempre foi  amada por todos os meus amigos, não só porque tinha sempre alguma coisa engraçada para dizer, porque se ria connosco das mesmas coisas, mas também porque fazia umas tostas mistas de três andares. TRÊS ANDARES! Eram umas tostas que quase não cabiam na nossa casa.

Moral da história: não é preciso uma casa grande para ter amigos. Basta ter um coração grande, comida em casa e amigos com fome.

 

Catarina Matos

Mealhadense emigrada na Alemanha

Humorista e atriz